A Lenda do Cavalo Mangalarga
" Rezam as antigas tradições ruralistas de Minas que todos os
criadores da zona de Barbacena buscaram a melhoria de seus plantéis de equinos,
junto à célebre Caudelaria Real de Cachoeira do Campo, mas cercanias de Ouro
Preto, ali instalada segundo as ordens de D. João VI, no princípio do século
passado, na sua tarefa de reerguimento do Brasil Colonial.
Entre esses criadores, um havia,
conforme a lenda, conhecido pela sua boa vontade dedicação, no serviço de
aperfeiçoamento dos cavalos da região, que se aproveitara largamente dos
benefícios da Caudelaria Real já referida, melhorando os equinos de sua
propriedade.
Felício dos Reis, a sitiante
operoso e dedicado à pecuária, todavia, em determinada época de sua vida, foi
compelido a lançar mão de sua fazenda pobre, vendendo, igualmente, todos os
cavalos que possuía, em foco da enfermidade que lhe invadira a casa,
aniquilando-lhe a família.
Restava-lhe tão somente um potro,
que a sua dedicação conservara, apesar de todos os desastres financeiros. Mas,
Felício dos Reis estava agora cego e como todos os cegos do sertão, o antigo
sitiante, cantava em público para ganhar o pão da vida.
De vez em quando, aos domingos,
era ele visto, ao pé da porta da Matriz de Barbacena, implorando a caridade de
quantos vinham ao sacrifício da Missa. Um domingo de maio de 1820, Felício dos Reis, acompanhado
de seu guia habitual, trazia também consigo o cavalo que a sua vaidade de
criador conservara, apesar de todos os pesares.
A venda do potro era o derradeiro sacrifício a que ele se
submetia, perseguido pelas necessidades mais duras. No meio da algazarra na missa domingueira, alguns rapazes
mais afeitos ou interpelavam:
_ Olá, Felício... Quanto quer pelo
cavalo?
_Cem mil réis.
_Está louco, homem! Isso é um
absurdo.
No semblante do cego transparecia um véu de tristeza, como
se ao anunciar o preço incomum, estivesse afastando todas as possibilidades de
se desfazer do animal, pelo desejo de retê-lo junto a si, em prejuízo de suas
necessidades próprias.
Um amigo, porém, informa o
criador, de que se acha presente no odro uma grande personalidade da
aristocracia de Minas Gerais. Aguçando os ouvidos, Felício dos Reis é
cientificado de que o Sr. Gabriel Francisco Junqueira, Barão de Alfenas,
Fortuna dos mais eminentes da Capitania, estava ali de passagem para Ouro
Preto, onde a sua presença era reclamada, em virtude de certas injunções de sua
vida financeira e política.
Com efeito, aproximando-se do
grupo, o barão de Alfenas examinou o cavalo, exclamando, na sua paixão de
fazendeiro:
_ Soberbo animal!...
Mal havia terminado a frase, já o cego contava, como se os
quadros, feitos de improviso, nascessem do mais íntimo do seu sentimento e de
sua alma:
"Senhor ilustre Barão,
Ouve a voz do seu vassalo,
Vou contar-lhes com respeito,
A história de meu cavalo.
Tomé de Souza é quem trouxe
Nos seus navios de carga,
Um cavalo da rainha
Que chamava "Mangalarga".
Sei os nomes, de memória,
Dos troncos deste animal,
Que há muitos anos vieram
Das terras de Portugal.
"Mangalarga" então foi pai
De "Três Pontos" e "Dengoso",
"Dengoso" gerou "Valente",
"Valente" gerou "Formoso".
"Formoso" gerou "Canário",
"Canário" gerou "Trajano",
"Trajano" gerou "Alteza",
Que foi pai de "Soberano".
Mais tarde, o pai de meu porto
Que era um soberbo animal,
Foi comprado para Minas,
Pelo Rei de Portugal.
Puz-lhe o nome de "Mangalarga"
Neste animal que lhe dou,
Recordando os benefícios
Do nome de seu avô.
Só mesmo a si eu podia
Confiar o meu tesouro,
Meu cavalo "Mangalarga"
É todo feito de ouro.
Os avós de meu cavalo
Foram sempre a companhia
Dos homens que guerrearam
Em Pernambuco e Baia.
Aqui meu potro nasceu,
Mas que sina, meu senhor!...
Tem de apartar-se de mim,
Que o criei com todo o amor.
Meu amo, leve este potro,
Senhor ilustre Barão,
Eu lhe entrego o meu cavalo
Com dores no coração.
Deus lhe pague o bem que faz
Enchendo-me de alegrias,
"Mangalarga" há de lhe dar
Muita fortuna nas crias.
Deus abençoe a fazenda
Do ilustre senhor Barão,
Que é homem de caridade,
De dinheiro e coração."
Gabriel Francisco Junqueira,
comovido até as lágrimas, não estranhou o elevado preço do animal, pagando,
incontinenti. Os amigos que os cercavam, felicitavam o seu bom gosto de criador
pela aquisição, enquanto dos olhos apagados de Felício Reis parecia chegar uma
lágrima.
O Barão de Alfenas, com a bondade
que o caracterizava, aproximou-se do vendedor, exclamando:
_"Meu amigo,
o seu potro merecer a todos os meus cuidados. Co mele, haveremos de organizar
uma nova raça de cavalos em Minas.
_ "Como se
chamará?" ... _ perguntou um dos amigos mais interessados no assunto.
_
"Mangalarga" _ respondeu o grande mineiro, sentindo um grande
bem-estar íntimo, em proporcionar o último conforto ao humilde criador de Barbacena,
que, ao ouví-lo, tranquilizava-se quanto
ao futuro de seu animal, voltando ao seu ganha-pão, de posse dos cem mil réis
que está fariam as suas necessidades imediatas. E o grande Barão de Alfenas
cumpriu austeramente o prometido. Em todo o sul do Estado, difundiu-se a
valorosa descendência do "Mangalarga", de onde mais tarde se
transportou o cavalo mineiro para São Paulo, onde, há bastante tempo, está sob
a proteção de criadores de cavalos Mangalarga.
Todavia, agora, o nosso
"Mangalarga", legítima expressão de gênio criador de pecuarista de
Minas, tem o seu porvir assegurado com a instalação de Registro Genealógico dos
Rebanhos Mineiros, onde a sua valorização encontrará todos elementos de apoio
nas nossas esferas administrativas.
Trazendo o nosso voto de aplauso
ao eminente governo de Minas, somos levados a recordar os notáveis
acontecimentos de nossa história econômica, dado carinhosamente pela alma
simples e conservadora do povo."