Rosalbo F. Bortoni
Saído da tradicional Fazenda do Cafundó, na Cruzília, o Coronel Severino Junqueira de Andrade radicou-se em 1912 na Zona da Mata. Levou consigo os cavalos, como fizeram também os outros parentes que, saídos do Sul de Minas, se radicaram no Estado de São Paulo.
Homem de hábitos severos, o Coronel Severino imprimiu em sua tropa as características que hoje ainda vemos e que fizeram dos Tabatingas excelentes cavalos de sela: estrutura, resistência, comodidade, docilidade.
A razão determinante de preferência pela Zona da Mata se deu pelo seguinte: estudante no Rio de Janeiro, para onde ia àquela época a cavalo, o menino Severino nas férias do meio de ano ficava na fazenda de parentes mais perto do Rio de Janeiro, já que a viagem a cavalo do Rio para Cruzília levaria alguns dias. Assim foi que Severino se transformou em rapaz, sempre freqüentando a fazenda dos parentes da Zona da Mata. Ali conheceu Irene.
Terminados os estudos, Irene e Severino se casaram. O Sul de Minas, distante dos grandes centros, não era mais lugar para Severino. Comprou então a Fazenda São Luís, no município de Matias Barbosa, e de armas e bagagens se transferiu para lá.
A Fazenda São Luís era, e ainda é - embora já não mais pertencendo aos descendentes do Coronel - fazenda de lavoura. Severino sempre foi mais pela pecuária. Assim, comprou outra fazenda, a Tabatinga, no vizinho município de Santana do Deserto.
Grande observador, extremamente sistemático e, principalmente, grande cavaleiro, foi selecionando os animais à sua feição, eliminando do plantel aqueles que não via as qualidades que considerava indispensáveis para um bom cavalo de sela.
Embora fisicamente afastado do Sul do Minas, Severino sempre voltava às origens, para rever os parentes e os muitos amigos que pela vida toda cultivou. À época era comum a troca - ou definitiva ou por empréstimo - de reprodutores eqüinos. Também ele se deu a esta prática. Quando julgou necessário, levou para a Tabatinga o reprodutor Clemanceau II, do Campo Lindo, que foi o pai de Nero, que gerou o grande Tabatinga Predileto.
Aliás, em se falando de Predileto, muitos anos atrás o Sr. Erico Ribeiro Junqueira levou da Tabatinga para a Abaíba um garanhão com este nome Predileto, e que no dizer do Sr. Erico foi o mais importante reprodutor que a Abaíba já teve. Dizia ele que foi o cavalo que fixou um tipo na tropa, e que ainda se vê. Basta dizer que Predileto foi o pai de Abaíba Eldorado, que foi pai de Providência Itu, pai do atual reprodutor da Abaíba, o Reserva.
Grande observador, Severino foi pasando para os sucessores os conhecimentos adquiridos, embora de maneira meio seca e até mesmo meio parabólica. Certa feita, já com sua filha Maria Gabriela casada com o jovem engenheiro Dirceu Vilhena Fabiano de Araújo - o nosso mesmo querido e saudoso Dr. Dirceu, iam os dois - sogro e genro - passando por um pasto e viram uma novilha que descia em desabalada. Olharam, e comentou o Coronel para o genro: "- Esta novilha está com alguma coisa na garganta".
Chegando à sede, Osvaldo o administrador, foi chamado. Tocou-se a novilha para o curral. Na garganta dela havia um pedaço de osso. Tirado, voltou a novilha à normalidade.
Admirado, Dirceu perguntou ao Coronel como ele havia percebido que seria exatamente aquilo. Resposta, seca, bem ao feitio do Coronel: " - Vocês não observam!”
Mais não disse e nem lhe foi perguntado. Os discípulos que aprendessem a observar melhor. Aprenderam, realmente. E a observação passou a ser um traço marcante nos descendentes do Coronel Severino. Dirceu, com a morte do sogro, passou a administrar também as fazendas, e à época ia todas as semanas da Tabatinga à São Luís a cavalo. Era a época da guerra mundial. A cavalo andava num dia 72 quilômetros. Evidente que precisava de cavalos bons!
Grande admirador e também profundo conhecedor de cavalos, Dr. Dirceu deu continuidade à obra iniciada pelo sogro, que em determinado momento já vinha mesmo sendo orientada pelos dois. Neste trabalho foi-lhe de grande utilidade o moço Osvaldo, o administrador, que é o mesmo Sr. Osvaldo simpático, sereno, e - isto especialmente - grande observador. "- Aprendi com meu patrão", diz ele hoje ainda na Tabatinga, onde já presta seus serviços há 50 anos. Repositório de histórias, a apenas poucas pessoas conta, pois como "seu patrão" - que ainda hoje é o Coronel Severino, é homem de muita sabedoria e poucas palavras.
Sob a administração do Dr. Dirceu a Tabatinga formou um plantel de fêmeas exclusivamente filhas de Predileto, o potrinho que o Coronel ainda conheceu e achava muto bom. Dirceu também achava. Graças a Deus, pois Predileto fez um lote maravilhoso de fêmeas, que sob a orientação já do filho do Dr. Dirceu - o nosso jovem Raul, e sabiamente cruzadas com o Cossaco, deu o plantel atual, reconhecido como o que há de melhor dentro da raça.
Na administração do Raul a Linhagem Tabatinga conheceu o apogeu e teve o reconhecimento de suas grandes qualidades. Embora tendo convivido pouco com o avô, com quem ainda menino saía a cavalo pela fazenda, Raul teve no pai o mestre sereno, amigo e sábio. Com o pai, Raul conheceu a equitação clássica, que com sabedoria soube adaptar para a sela corrente do dia-a-dia. Não é à-toa que em Raul se reconhece hoje o grande cavaleiro que é, com rara sensibilidade para "sentir" um animal, com raro dom para fazer o acerto daquele animal.
Sensibilidade que vem passando por gerações. E não apenas direcionada para bons animais. Em geral. Embora diferente. O Coronel Severino era fechado, de poucas palavras. Havia que ler nas entrelinhas o extravasamento de sua grande sensibilidade. Exemplo marcante desta faceta é o que há muitos anos fiquei sabendo. O Coronel estava no Rio de Janeiro. Na sua volta, na fazenda, estavam todos apreensivos porque teriam que dar-lhe a notícia da morte do seu cavalo de maior estima. Após as informações gerais sobre o andamento da fazenda, chegou o momento da notícia. "- Coronel, seu cavalo morreu".
Silêncio profundo. Os olhos do Coronel se perderam num olhar distante, talvez relembrando os momentos vividos em companhia do companheiro que se fora. Finalmente, com a voz um tanto embargada, mas com forçada naturalidade, veio a resposta, em forma de outra pergunta: "- Vocês tiraram-lhe as ferraduras?”
Osvaldo entendeu perfeitamente o que queria dizer: que não se falasse mais no assunto, que era penoso para o Coronel.
Bem diferente seria a manisfestação de nosso saudoso Dr. Dirceu. Sua sensibilidade sempre se extravasava, ela lhe aflorava na pele. Não raro, era exteriorizada em forma de poesia; que poeta de rara sensibildade era nosso amigo e mestre.
Em Raul a sensibilidade está mais para ser lida nas entrelinhas. É, neste particular, muito mais para o avô do que para o pai. Quem o conhece bem sabe disto. E eu sei.
Bem diferentes na exteriorização de seus sentimentos são os homens que fizeram a Tabatinga. Mas pode-se dizer que a tropa da Tabatinga é o resultdo do binômio observação e sensibilidade. Sempre foi assim. Grande observador, o Coronel Severino aliou a esta qualidade a busca de conhecimentos, de alargamento dos limites do horizonte. Seu sucessor, Dr. Dirceu, amigo e discípulo do sogro, acrescentou mais com seus conhecimentos de hipólogo. Era, inclusive, juiz de provas de adestramento, que é a equitação elevada a requintes de ciência e arte. E em Raul fundiram-se os conhecimentos do avô e do pai: grande observador e apurada técnica.
Este são meus amigos.
Isto é a Tabatinga